terça-feira, 20 de outubro de 2009

##Etapas vitais do cão doméstico ##

Este é um artigo que se reveste de primordial importância para os criadores, mas não deixa de ser interessante para todos aqueles que, de uma maneira ou de outra, estão ligados aos cães das mais variadas maneiras; criadores, proprietários, adestradores, veterinários ou simplesmente amantes e estudiosos do fenómeno canino.Há duas fases da vida do cachorro que considero de extrema importância para o desenvolvimento da estrutura mental do futuro cão: as fases do imprinting e da socialização. É nestes dois períodos da vida do cachorro que é definido o cão que iremos ter no futuro: se são mal executadas teremos um exemplar cheio de problemas de índole social, se forem bem conduzidas é certo que seremos recompensados com cães alegres, extrovertidos e bem integrados na sociedade.Decidi, para melhor compreensão dos leitores, estruturar cronologicamente o artigo, iniciando a descrição das referidas etapas no nascimento do cachorro:Período neo-natal (nascimento até à 2ª semana)- 90% do tempo investido na alimentação e no sono.- Estimulação materna da zona ano-genital com finalidade de induzir a micção e a defecação dos cachorros.Período de transição, critico ou “Imprinting” (3ª e 4ª semanas)- Inicia-se a independência nas condutas de eliminação.- Inicio dos comportamentos lúdicos e exploratórios.- Inicio do processo de “Imprinting”.“Imprinting”Conceito lançado pela primeira vez pelo naturalista Austríaco Konrad Lorenz (1903 – 1989) Prémio Nobel da Medicina em 1973 e considerado o pai da Etologia Moderna. Ele demonstrou que, no trabalho que realizou com gansos, estes seguiriam o primeiro objecto em movimento que encontrassem no seu meio envolvente, mal saíssem dos ovos, ocorrendo assim uma ligação social entre o pequeno ser e o objecto ou organismo que eles vissem em primeiro lugar. Foi o caso da experiência realizada pelo próprio Konrad Lorenz que ao criar uma ninhada de gansos cinzentos desde a oclusão dos ovos, os pequenos gansos o tomaram como sua mãe, seguindo-o incondicionalmente e, mesmo depois de se tornarem adultos, manifestaram sempre maior preferência por ele do que pelos outros gansos.O comportamento de um animal, de qualquer animal, é o resultado da interacção de dois factores fundamentais: a genética e o meio ambiente, e em muitos casos é quase impossível separar o aspecto filogenético (Incluído no seu material genético. Herdado) do ambiental. Um dos exemplos mais curiosos dessas influências no referido comportamento animal é o chamado “imprinting” (estampagem ou impregnação em português, apesar do termo, em si ser intraduzível).O imprinting é a primeira e mais duradoura forma de aprendizagem. Graças a ela, o animal aprende a ser membro da sua espécie, enquanto estabelece relações com os de outra.Em todas as espécies existe um período, denominado período crítico, durante o qual o factor ambiental é mais susceptível de influenciar o comportamento e é nesse espaço de tempo da vida do animal que a acção do imprinting resulta particularmente intensa e duradoura, tendo grande importância no desenvolvimento dos padrões ontogenéticos (desenvolvidos durante o período de vida do animal) ou vitais.O período crítico não é o mesmo em todas as espécies. Nas aves, por exemplo, por pertencerem a espécies precociais (espécies de rápido desenvolvimento. Necessitam de poucos cuidados parentais. Contrário de espécies altriciais), o referido período emerge logo nas primeiras horas depois do nascimento. Nos canídeos esse espaço de tempo inicia-se à terceira semana de vida, quando os cachorros começam a abrir os olhos, e a ouvir. É importante que, nesta fase, a mãe esteja presente na altura do desenvolvimento sensorial dos cachorros, pois será ela o primeiro elemento que eles verão e será nela que se fixarão como pertencentes a uma determinada espécie.Para a mãe também é extremamente importante esta fase, pois o desenvolvimento do comportamento maternal da fêmea está caracterizado pela aparição de um período sensível em que ela aprende a reconhecer as suas próprias crias assegurando, desta forma, que o instinto maternal se mantenha durante a época de amamentação.Período sensível ou de socialização. (da 5ª à 12ª semana)- É o mais importante da vida do cão. - Acaba o “imprinting”.- Começa a exploração ano-genital e a relação social com os parentes.- Esta fase acaba quando observamos uma reacção elevada de medo perante um estímulo novo.- É o momento de começar a trabalhar as condutas instintivas.- Inicia-se a socializaçãoSocializaçãoNos canídeos o período de socialização está compreendido entre as 5 e as 12 semanas. Podemos definir esse período como o espaço de tempo compreendido entre o início da maturidade sensorial e a consolidação das estruturas nervosas que controlam a resposta de medo perante situações novas. É ainda durante este espaço de tempo que se dá o desenvolvimento sensorial e locomotor do animal e, graças a ele, o cachorro aprende a deslocar-se, explorar o seu meio envolvente e a interagir com os demais. Às 12 semanas acaba este período com a primeira demonstração de medo como resposta a alguns estímulos novos. Em determinadas espécies, como os canídeos parece que se produz uma aceitação implícita do humano como companheiro social em pé de igualdade com os membros da sua própria espécie. Uma exposição breve durante o período sensível ou de socialização é suficiente para que se estabeleça uma relação normal com os seres humanos. É nesta fase que o cachorro deve iniciar o contacto com outros cães e fundamentalmente, com adultos e crianças. É a altura de colocar o cachorro perante situações novas parecidas com as que encontrará na fase adulta.Se até à 14ª semana não se proceder a esta integração do cachorro na sociedade onde irá viver, este deixará de responder e o seu futuro comportamento tenderá para a anormalidade. Esta fase de socialização é particularmente importante para a vida futura do cachorro e daqueles que com ele irão conviver. É aqui que se irão lançar as bases que definirão a estrutura mental e social de um cão. 90% dos problemas comportamentais anómalos e desviantes de cães que têm chegado ao nosso conhecimento, têm origem numa deficiente, mal conduzida e mal executada fase de socialização.Período Juvenil. (da 13ª semana à maturidade sexual)- Desenvolvimento da capacidade motora.- Respostas de medo mais intensas.- Aumenta a dificuldade de socialização.Fase da maturidade.- Fixação dos padrões de conduta.- Aumento da capacidade de aprendizagem.- Aparecem os problemas comportamentais. Com este artigo espero ter contribuído para uma melhor compreensão, principalmente por parte dos criadores, das etapas por que um cão passa desde o seu nascimento à fase adulta. Apelo aos criadores, a fim de evitar problemas adjacentes, que se debrucem mais na socialização dos cachorros, preocupem-se fundamentalmente em proporcionar aos cachorros a possibilidade de serem confrontados com todo o tipo de situações, de ruídos, de dificuldades para ultrapassar, apresentem-nos a animais da mesma e de outras espécies, etc., para que os problemas que existem actualmente com a maioria dos cães não se venham a verificar no futuro, não só para bem deles mas principalmente para o bem da sociedade. Numa palavra: Dêem aos cães a possibilidade de serem cães.

## EDUCAR E ADESTRAR##

Por ser um tema polémico - é abordado em muitas discussões e em tertúlias caninas - estes dois conceitos têm-se tornado objeto de discordâncias em relação ao papel de cada um na evolução da aprendizagem do cão.Para que, de uma vez por todas, se esclareça a importância que um e outro têm no contexto em que se inserem, iremos de seguida ressaltar a importância de cada um.Recorrendo-me do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa, etimologicamente Educação é a “acção de desenvolver no indivíduo, especialmente na criança ou no adolescente, as suas capacidades mentais e físicas e de lhe transmitir valores morais e normas de conduta que visam a sua integração social”. Adestramento é a “acção ou resultado de ensinar, exercitar e treinar conceitos de formação específica”.Para facilitar a compreensão dos dois conceitos e a diferença existente entre ambos, vamos utilizar o exemplo do ser humano. O produto final de um ser vivo é o resultado da interacção do seu potencial genético com o meio em que se desenvolve. Sendo assim, podemos chegar à conclusão que, no ser humano, como no cão ou em qualquer ser vivo, a influência genética é pouco relevante na formação da personalidade de um indivíduo. Resta-nos a envolvente social para formarmos e moldarmos o carácter de cada ser.A criança desde que nasce, começa a ser educada segundo os padrões culturais dos seus pais, através da experiência adquirida por estes e dos valores que defendem, irão ser transmitidas aos filhos com o objectivo de torna-los nos adultos de amanhã moldados à sua imagem ou à imagem daquilo que acham ser o tipo ideal; moral e socialmente. Assim, nos primeiros anos irão ser-lhes administrados conceitos básicos que, apesar de tudo, serão muito úteis e totalmente necessários para a vivência em sociedade: o conceito de hierarquia, a coesão familiar, ensiná-los a alimentarem-se, a vestirem-se, a sua higiene pessoal, os valores da solidariedade, da amizade, da honra, etc., a maneira como aceitar e lidar com os estranhos à família e muitos outros conceitos de primeira necessidade que lhes possibilitarão enfrentar o dia a dia. Isto é educar.A aprendizagem mais formal e com objectivos de formação mais específica é aquela que é administrada nos bancos das escolas primeiro e nos anfiteatros das Universidades depois, administrados por pessoas com formação especifica para o fazer. Ler, escrever, deduzir matematicamente, interrelacionar conceitos de história, geografia, física, química, etc., adquirir cultura geral, enfim, formar-se intelectualmente. Isto é treinar e desenvolver o intelecto.Pois se para nós humanos, isto é tão claro, porque não o será também para os cães? Não estarão neles relacionados estes ciclos de vida à semelhança do que acontece com os nossos filhos? Não necessitam eles de se socializarem e de se hierarquizarem? Não estamos nós obrigados a ensiná-los a comer a horas e em sítios certos, a fazerem as suas necessidades nos locais apropriados, a brincar, a jogar, a interagir connosco e com os da sua espécie, em suma, a torná-los sociáveis? Isto é educar um cão.Tudo isso está muito correcto, mas essa aprendizagem ficaria incompleta se não conseguíssemos interagir e interrelacionar com eles de uma forma completa. Para isso o cão precisa de aprender mais e neste caso é uma aprendizagem já não tão abrangente do ponto de vista social e de cuidados primários de sobrevivência, mas mais específica em termos de obediência básica e social. Para vivermos em paz e harmonia com o nosso amigo canino ele tem que saber andar ao lado do dono calma e ordenadamente, tem que se sentar e deitar ao mando do dono, tem que saber ficar quieto e calmo quando o dono vai ao café ou à padaria, tem que vir quando é chamado, etc. E aqui, vamos ter que adestrar o nosso cão nessa componente. Do que foi dito podemos deduzir que, e infelizmente é pratica corrente em muitas das nossas escolas de treino canino, adestrar um cão que não tenha as bases consolidadas da sua educação primária é a mesma coisa que colocar uma criança de sete anos a tirar uma licenciatura em Engenharia ou em Medicina.Por fim, é importante adiantar que tudo o que foi exposto, não é o resultado de uma mera opinião do articulista mas baseado em estudos efectuados pelos mais conceituados especialistas em Comportamento Canino.

##a chegada do bebe em casa ##

Finalmente um bebé irá aumentar a família. É uma grande notícia há muito esperada, mas… existe um problema: o cão. A angústia e a incerteza começa a tomar conta dos elementos da família e começa a colocar-se a hipótese de bebé e cão terem uma existência conjunta incompatível. Nada de mais errado. O cão é um elemento que tem o seu lugar no seio da estrutura familiar, como tal, o que temos que fazer é enquadrá-lo nessa estrutura e fazê-lo entender qual é o seu lugar na dita.Um cão bem-educado, socializado correctamente em vez de humanizado, equilibrado e perfeitamente hierarquizado, normalmente não coloca problemas, pois conhece qual a sua posição no seio familiar aceitando o bebé como mais um membro da sua matilha ao qual terá que respeitar e obedecer. Este artigo é dedicado a todos os proprietários de cães que, por desconhecimento ou inépcia, estão enquadrados no grupo daqueles para quem o cão está perfeitamente em contraponto com aquilo que foi dito no parágrafo anterior.Sendo assim, vamos começar a mudar a nossa conduta em relação ao nosso amigo canino. Para isso vamos dividir este procedimento em quatro etapas:Antes da chegada do Bebé. O objectivo deste procedimento é o de baixar o nível hierárquico que o cão tem actualmente dentro da família, como tal vamos alterar hábitos que existiam e proceder como se o bebé já convivesse com a família tendo como propósito o de dar a entender ao cão que, como quando o bebé verdadeiramente chegar, as atenções irão ter que ser divididas pelos dois, mas numa percentagem maior para o bebé. Vamos progressivamente começar a dar menos festas e menos atenção ao cão. Os passeios e as horas dos mesmos vão ser alteradas e deixam de ser com horário certo e serem feitos sempre nos mesmos locais.Os rituais da comida também vão ser alterados, passa a comer somente depois dos donos terem comido. Retira-se o comedor, ainda com comida, com alguma frequência para que o cão entenda que só come aquilo, e quando o dono quiser, não sendo admitidas quaisquer rosnadelas ou outro tipo de ameaças.Temos que ser consequentes com estes procedimentos. Se não conseguirmos realizá-los, deve-se chamar um profissional para que o faça.Evitar traumas na introdução do bebé em casa.Assim que o bebé entrar em casa deve ser logo apresentado ao cão e deixar que este o cheire e faça o seu reconhecimento. Como é óbvio, temos que ter sempre o controlo da situação. Este primeiro contacto convém que seja o mais agradável possível para o cão e premiá-lo sempre que este mostrar uma atitude calma e de aceitação do novo membro.Se possível, antes de trazermos o bebé para casa, pegamos numa peça de roupa com o cheiro deste e damos ao cão a cheirar para que este grave na sua memória olfactiva mais este odor. Podemos igualmente gravar o choro do bebé e deixar que o cão o oiça para se habituar a esses novos ruídos.Correcta integração do bebé na estrutura hierárquica da família.O cão deve participar em todos os momentos em que o centro das atenções seja o bebé.Se eventualmente num determinado momento o cão apoia a cabeça no bebé não nos devemos preocupar, está dando a entender que o considera inferior. Os cães extrapolam atitudes de matilha canina na matilha humana. Mais adiante colocaremos o bebé no lugar correspondente no seio da matilha humana.Se pelo contrário observarmos que o cão manifesta uma atitude que não é a adequada, será repreendido pelo líder da matilha humana. Não é aconselhável enviar o cão para outro local da casa, pois o ideal é que o problema seja resolvido na altura e sem adiamentos.Aumento progressivo do posto hierárquico da criança.Chegou a altura de elevar o posto da criança perante o cão. Se o trabalho foi efectuado correctamente antes a chegada do bebé, será muito mais fácil ultrapassarmos esta fase.Começamos por deixar ser a criança a dar a comida ao cão e a retirar o comedor ainda com ração, sempre sob a nossa supervisão.Obrigamos o cão a deitar-se para que a criança o acaricie e o escove.Quando a criança já falar ensinamos-lhe os comandos a que o cão está habituado, tais como, senta, deita, quieto, etc. À medida que a criança for crescendo, ensinamos-lhe outros exercícios mais complexos, como por exemplo: tirar-lhe um brinquedo da boca. Sempre sob a nossa supervisão.A alegria de sermos pais não pode ser ensombrada por possuirmos um cão.Podemos perfeitamente conciliar e até potenciar, a presença de um cão e de um bebé recém-chegado a casa.

##Os Instintos Básicos do Cachorro ##

Como desenvolver osINSTINTOS BÁSICOS DO CACHORROCom vista a obter um futuro cão de Trabalho e esporte A solidez de carácter do cão adulto é consequência directa do adequado equilíbrio dos seus instintos naturais. A criação permite seleccionar os exemplares melhor dotados para o trabalho e para o desporto. O adestramento dá forma ao “todo”. E, neste sentido, o papel exercido pelo adestrador desde as primeiras semanas de vida é imprescindível.Instinto GregárioO cão, animal de matilha como o seu ancestral o Lobo, prefere viver no seio de uma comunidade. O medo atávico que o Lobo tem das pessoas foi vencido pelo cão há 16 000 anos com a sua domesticação.O cão não considera o homem como pertencente à sua espécie, mas aceita-o no seio da sua comunidade e aprendeu a integrar-se também na humana. Esta circunstância faz com que o cão encontre facilmente o seu lugar na escala hierárquica da família humana que o acolhe e é esta a base da relação com o seu dono ou adestrador.Mas o facto de o cão não temer os humanos tem como consequência que a conduta de os morder se encontre desinibida, em maior ou menor grau. Por esse motivo é possível que os exemplares adultos, em determinadas situações, sejam capazes de defender-se do homem ou, inclusivamente, atacá-lo.O fenómeno baptizado por Konrad Lorenz Imprinting (anglicismo do termo alemão Prägung, e já abordado por nós em artigos anteriores), que significa impressão, tem lugar a partir da altura em que o cachorro abre os olhos e começa a ter noção do meio envolvente, nas terceira e quarta semanas de idade. Durante esta fase, diferentes estímulos e comportamentos adquirem um significado concreto que fica gravado para sempre.É neste período que convém manipular o cachorro diariamente, pois é-lhe oferecida a oportunidade de reconhecer o homem como membro do seu grupo social. De facto, está provado cientificamente que os cachorros que, nesta idade, são pesados diariamente são mais seguros e sociáveis que aqueles que não têm tanta atenção por parte do homem. Quero com isto dizer que é obrigação do criador tratar cuidadosamente os cachorros e evitar que todas as situações desagradáveis possam deteriorar o futuro carácter do cão definitiva e irreparavelmente.A partir da quinta semana começam a aparecer vestígios de comportamento de defesa do alimento, mas é depois da sexta semana que se evidenciam claros comportamentos agonísticos à volta do comedouro, com grande profusão de sinais: eriçamento dos pelos dorsais, rosnadelas, ladridos e autenticas lutas. Através deste tipo de condutas começa a estabelecer-se a escala hierárquica no grupo e um dos cachorros, geralmente o mais desenvolvido, começará a destacar-se dos restantes. Come primeiro, não deixa os irmãos acercar-se até que se sacie, colocará as patas sobre quem ouse disputar a sua primazia… em definitivo, converte-se num líder.O criador não deve intervir neste processo, mas quando já estiver claramente estabelecida a dominância de um dos cachorros, chegou o momento de o separar dos outros para evitar que o seu carácter se construa à custa da deterioração do dos demais. Assim dá-se a oportunidade a outro de se converter em líder, repetindo-se assim o processo anterior até que fique só um que será o seu próprio líder.Para a maturação do comportamento social é tão importante dominar como, em certas ocasiões, aceitar ser dominado. Uma atenta observação à ninhada oferecerá ao criador, nestas alturas, suficiente informação para que possa ter uma ideia clara das características psicológicas de cada exemplar: do carácter (capacidade de excitação), do temperamento (grau de dureza perante estímulos adversos), da inteligência adaptativa (facilidade de resolução perante situações novas), da capacidade de recuperação (facilidade de superação de situações desagradáveis), etc.O segundo dominante é, de momento, o cachorro que demonstrou ser o melhor, pois foi dominado, recuperou-se e soube dominar os outros. O primeiro dominante só mostrou capacidade de dominar não passando pela experiência de ser dominado. Poderá ser este o melhor mas poderá dar-se o caso de não ser. Terá de demonstrar a sua capacidade de recuperação e, para isso o criador terá que intervir, submetendo-o e facilitando o seu restabelecimento.O criador deve ser aceite como fazendo parte da comunidade. Para ele, ainda que os cachorros vivam separados, é conveniente que nalgumas ocasiões os juntem todos, mãe incluída, permanecendo debaixo da sua atenta supervisão. O criador deverá ser aceite como o elemento super-alfa. A sua experiência, sensibilidade, tolerância, doçura e firmeza permitirão que os cachorros aprendam a aceitar os diferentes estímulos, tanto positivos como negativos, com toda a naturalidade e sem inibições.Através do jogo o cachorro aceita sem traumas a autoridade do homem. Brincar com o dono facilita a relação entre ambos, melhora a comunicação e facilita que o cão reconheça a hierarquia, que desenvolva a sua capacidade de aprendizagem e que adquira, em suma, a disposição necessária para o trabalho futuro.Instinto PredatórioDurante todo o período de socialização (das 5 às 12 semanas), o criador deve iniciar as primeiras fases de fomento do instinto de caça, aproveitando as alturas em que se encontra reunida toda a ninhada – sem a mãe. Para evitar que os cachorros se cansem, estas sessões devem ser curtas, intensas e espaçadas no tempo.Assim, utiliza-se um trapo velho, que servirá de presa, que devemos mover rápida, e entrecortadamente e que, rapidamente, deve afastar-se dos cachorros. Com este procedimento iremos estimular o comportamento de caça e desenvolver a conduta inata de perseguir uma peça de caça que corre e se afasta. Finalmente, permite-se que a mordam para dar por encerrado este ciclo e poder dar-lhes liberdade ao seu comportamento de presa (isto não é mais do que o que as mães lobas fazem para ensinar à sua prole as técnicas de caça). Agora, podemos observar a capacidade expressiva da conduta persecutória, as características da mordida (tranquila ou nervosa, dura ou branda, ambiciosa ou tímida, duradoura ou breve) e o grau de possessibilidade.Da análise do conjunto das características psicológicas dos cachorros, se obterá informação suficiente para os classificar no que diz respeito à força da sua carga instintiva e em relação ao equilíbrio entre os seus diferentes instintos. Seleccionam-se os exemplares mais aptos para o Trabalho Desportivo (RCI ou SchH, por exemplo) e estabelecem-se em cada caso a estratégia adequada onde irão assentar as bases do futuro adestramento. Instinto de SobrevivênciaQuando o cachorro atinge as 12 / 14 semanas e já apresenta algumas sessões de trabalho relativas ao desenvolvimento do instinto de caça, pode-se aproveitar, ainda que leve e brevemente, o momento em que o acto de persegui a presa apresente a sua máxima expressão para, quase simultaneamente, permitir-lhe captura-la e assim restaurar a sua segurança e tranquilidade.Com a apresentação de estímulos adversos de intensidade inferior ao impulso predatório, o cachorro aprende que a mordida – de escape -, tem um efeito benéfico, pois faz com que cesse a pressão. Assim, agora acede à presa através do Instinto de Sobrevivência e não, como antes, através do Instinto de Caça. O resultado é que o animal descobre que a forma de canalizar as suas inseguranças é através da mordida – mordida de escape.Desta maneira, estabelecem-se solidamente as bases para o que no futuro será a pressão activa (pressão em direcção ao instinto).

##A Agressividade Canina I ##

Devido à importância e seriedade que este tema tem, iniciamos agora uma série de artigos relacionados com esta área do Comportamento Canino que tem levantado tantas controvérsias, erros e inexactidões quando é abordado. Debruce-mo-nos então, sem preconceitos, sobre a "Agressividade Canina". Parte 1Compreender a agressividade caninaActualmente, a agressividade é o maior e mais complexo dos problemas de comportamento canino, principalmente devido à maneira como é publicitado e também devido ao alcance social que o mesmo atinge. Contudo, a informação que é veiculada pelos média deve ser filtrada e interpretada com precaução, uma vez que existem muitos factores implicados no fenómeno que podem confundir e desvirtualizar a realidade. Por exemplo, segundo um estudo realizado em 2000 só 9,3% das vítimas de mordidas de cães são observados em hospitais. Outro factor importante é a raça, já que algumas são mais mediáticas que outras e consequentemente aparecem com mais frequência na imprensa e, na maioria dos casos, não é solicitado a um especialista em comportamento canino uma análise à situação nem uma pesquisa ao historial dos cães agressores. Outra estatística diz-nos que, nos Estados Unidos, as mordidas de cães, por ano, variam entre as 500.000 e os 4,7 milhões.De todos os ataques registados, parece que os mais frequentes são os que ocorrem em casa da própria vítima e contra pessoas conhecidas da família ou amigos. Dentro desta estatística são mais frequentes as mordidas a crianças. Segundo Sacks (um dos investigadores que estudaram este fenómeno) é 1,5 vezes mais provável que uma criança seja mordida e 3 vezes mais provável que necessite de tratamento. Além disso correm maior risco os meninos entre os 5 e os 9 anos mais que as meninas e encontrando-se as lesões na cara, pescoço e cabeça com maior frequência.Segundo outros estudos parece que as mordidas ocorrem frequentemente sem provocação por parte da vítima. Mas também é certo que a falta de conhecimento da linguagem canina pode levar-nos a estabelecer interacções com o cão sem nos aperceber dos sinais prévios de ataque. Sobre isto, podemos encontrar como causas dos vários ataques, as seguintes:• Falta de Socialização do cão• Comportamento da pessoa interpretada pelo cão como provocatória• Falha na interpretação por parte do cão ou do humano acerca das intenções de cada um. Segundo os investigadores Podberscek e Serpell (1997) os proprietários de cães muito agressivos tendem a permanecer num estado contínuo de excitabilidade e tensão podendo, como consequência, serem emocionalmente instáveis pelo qual têm tendência a aplicar castigos indiscriminadamente e sem coerência, podendo assim, aumentar as condutas agressivas já existentes. Chegam a castigar o cão com admoestações verbais fortes e violência física, sem pensarem que poderá ser mais adequado um treino em obediência.Como tem sido sublinhado nos vários artigos que temos publicado, o comportamento é o resultado da interacção complexa entre genes e meio ambiente. Sendo assim, segundo a população estudada e os dados disponíveis, podemos encontrar estatísticas que dão como mais frequentes os ataques de fêmeas de tamanho pequeno dentro da própria família, de machos castrados com menos de 1 ano de idade, de cães entre 1 e 3 anos ou de cães com determinadas características fenótipas que se assemelham a raças muito massacradas pelos meios de comunicação.Como realçámos no artigo dedicado ao imprinting e socialização, estes dois processos de aprendizagem têm um papel fulcral na prevenção deste problema social, assim como a capacidade de certas raças para interpretar os sinais dos seus congéneres e serem capazes assim, de resolverem os conflitos mediante comunicações intra-especificas de apaziguamento e não com lutas crónicas e intermináveis. E este é outro dos efeitos da domesticação a que se somam a antropomorfização levada a cabo pelos proprietários e a incapacidade de interpretar a linguagem dos seus cães. Reconhecer um comportamento agressivoDo ponto de vista psicológico, a agressividade é a activação de uma resposta ante um estímulo de stress adverso (negativo) para recuperar o controlo e/ou evitar a perca do mesmo. Quando falamos em stress referimo-nos a qualquer força imposta ao cão que requer ou obriga a mudanças ou adaptação.Na maioria das vezes os donos não têm consciência que os seus cães estão sempre a aprender. Nem tão pouco têm a noção de que muitas vezes estão a reforçar condutas agressivas. O nosso cão aprende todos os dias nos encontros com outros cães e pessoas, dentro de casa, nos jogos e interacções connosco e muito mais aprende se permitimos que o cão saia só e possa deambular pelas ruas.Reforçamos involuntariamente a agressividade se num desses encontros dizemos ao nosso cão: “calma boby, tranquilo” ou simplesmente o acariciamos em vez de ordenarmos que se sente ou deite. Recompensamo-lo igualmente quando o olhamos com ar de aprovação da acção.Se o resultado da agressão é a tomada de controlo da situação por parte do cão e assim resolve o conflito, este comportamento converte-se num êxito para ele e voltará a usá-la quando se lhe apresente o momento adequado numa situação se não igual, pelo menos comparável.Muitas vezes os donos de cães não reconhecem que o seu pode ser agressivo, até à altura em que este morda e provoque graves danos. Apesar disso existem outros sinais ou condutas que podem ser entendidas por agressivas, como comportamentos de evitação, rosnadelas, posturas desafiantes e intenção de morder.Para que o especialista em comportamento canino possa compreender o grau e tipo de agressividade do cão que está a analisar, seria necessário que o dono descrevesse fielmente a ou as situações em que o cão tem esse comportamento, coisa que na maioria das vezes não sucede devido à tendência ao antropomorfismo do dono. Como é muito difícil filmar todas as situações, é de extrema importância que o dono relate fielmente tudo o que se passou e o que despoletou a agressão e sobre os momentos anteriores e posteriores à mesma, os cães a as pessoas participantes.

##Será que co-habitamos com um Lobo?##

Como foi amplamente analisado num artigo anterior, hoje temos 100% de certeza que o nosso cão (canis familiaris) descende do Lobo (canis lupus). Os testes entretanto realizados provam que a sequência de ADN mitocondrial de ambas as espécies são iguais em 99,8%. Portanto, seguindo a tese da evolução Darwiniana convivemos diariamente com um Lobo carregado com 16000 anos de domesticação.Poder-se-á dizer que esse período de tempo é o suficiente para obtermos uma espécie construída à nossa imagem e às nossas necessidades? Os que pensam desta forma têm a seu favor o facto de que, através da Selecção Artificial, terem-se conseguido multiplicar raças com determinadas características, cada uma delas programadas geneticamente. Através da sequência de cruzamentos, conseguiu-se o aperfeiçoamento dessas mesmas características para fins específicos: cão de pastoreio, de caça, de cobro, de guarda, de tracção, etc., e mais recentemente, depois do advento da implementação da Etologia como Ciência do Comportamento e dos estudos subsequentes sobre a aprendizagem, através do adestramento científico foram-se especializando cães com o objectivo de ajudar o homem noutras áreas, como é o caso dos cães-guia de invisuais, cães de terapia, de busca e salvamento, detecção de drogas e armas, de despiste de algumas patologias como alguns tipos de neoplasias. Pois, mas também há quem advogue que, em termos evolutivos, 16 000 anos é um período demasiado curto para que uma nova espécie seja criada despojada de todas as ligações genéticas, instintivas e comportamentais que as unia à que a precedeu.Portanto, estamos numa encruzilhada e daí a pertinência da pergunta: Será que convivemos diariamente com um Lobo?Quando o leitor observa atentamente um grupo de cães em liberdade, constata que existe uma série de posturas ritualizadas que estes adoptam com um vincado cariz organizacional muito estruturado. Podemos observar claramente que existe uma perfeita hierarquização no grupo: há um chefe que eles sabem qual é, e depois há os subordinados que não se importam de o ser, desde que, para bem do grupo, seja emanada uma liderança segura e convincente por parte do chefe. Como demonstração da aceitação desse facto, os cães comunicam entre si através de uma série de tipos de linguagem intra-especifica que vão desde o olhar, a uma vasta panóplia de vocalizações, posturas corporais específicas, colocação da cauda, expressões faciais, etc.De vez em quando – não tantas quanto desejávamos – somos brindados com documentários televisivos sobre Lobos. Aí podemos observar, com admiração e alguma incredulidade, as parecenças que existem entre o comportamento das alcateias e a das matilhas de cães em liberdade. Todo o conjunto dos vários tipos de comunicação e organização social que tínhamos observado nos cães, estávamos agora a apreciar nos Lobos.A dúvida adensa-se: Será que o nosso inofensivo cão é um Lobo?Para tentarmos compreender melhor esta temática, falemos de comportamentos instintivos procurando fazer uma analogia entre o cão e o Lobo:- Quando estamos a brincar com o cão atirando uma bola ou um pau para ele ir buscar, estamos a desenvolver-lhe sequencialmente dois instintos primários típicos dos Lobos: o Instinto de caça – correr para alcançar – e o instinto de presa – agarrar com os dentes. Estes são dois dos instintos mais básicos dos Lobos e que têm entre si um denominador comum: sobrevivência. - O ladrar ao carteiro ou ao transeunte que passa junto dos muros da nossa propriedade, não tem para nós um significado muito especial, mas para o cão é um comportamento instintivo herdado dos seus ancestrais, os Lobos. O instinto de guarda é aquela conduta que os Lobos utilizam para proteger a alcateia dos invasores, ou dos predadores, como os ursos ou o próprio homem. Nos cães esse instinto é inato e não tem a ver com raças. Quantas vezes ouvimos um chihuahua ou um pinscher a ladrar da mesma forma que um pastor alemão ou um dobermann, quando nos aproximamos dos seus territórios? Territórios esses que são de tal maneira guardados e protegidos, por serem escassos, que os seus ocupantes, de tão zelosos que são, têm o cuidado de os delimitar marcando-os com a sua própria urina, para que um possível intruso saiba que o mesmo já tem dono impedindo-o de se aventurar em o ocupar. Assim como identificar possíveis visitantes através do cheiro da zona anal com o objectivo de saber se pertence ou não ao grupo residente. Quantas vezes já vimos os nossos cães alçar a pata e urinar contra o muro de entrada da nossa propriedade, e quantas vezes deparámos com a desagradável situação de vermos o nosso cão cheirar o traseiro do cão do vizinho. Não existe nada de estranho neste comportamento, eles estão unicamente a fazer o que lhes está nos genes e a comportar-se como os seus ancestrais, tentando defender o seu território e a sua “matilha” humana. - Ficamos aflitos quando o nosso cão desaparece sem motivo aparente e, depois de muita procura, o encontramos num grupo de outros cães que, aparentemente, nada têm em comum. Mas o facto é que têm: uma fêmea na fase produtiva do ciclo estral. Ficamos horrorizados e sem entender porque é que o nosso super premiado poodle se misturou com aqueles rafeiros mal cheirosos. Mas é verdade, o nosso cãozinho de estimação, durante esse período, deixou de ser um cão para se transformar num Lobo. O instinto de procriação é muito forte e a passagem dos genes para a geração seguinte é um dos objectivos de vida de todos os seres vivos. Três instintos básicos inerentes quer a cães, quer a Lobos: Sobrevivência, Protecção e Procriação. Posto isto, chegamos à seguinte conclusão: aquele que dorme, come e brinca connosco, que nos deixa meter a mão na boca, que é afagado por nós, que partilha os nossos sentimentos e as nossas emoções não é nem mais nem menos que um... LOBO com um percurso evolutivo de 16000 anos, daí que a designação científica mais correcta seria: Canis Lupus Familiaris.